13 de nov de 2013

Transformando suor em Ouro - Bernardinho



Trecho do livro e comentários  de Joao Pedro Paes Leme

Como centenas de milhares de adolescentes na década de 1980, cresci apaixonado pelo vôlei. A geração de Bernard, Renan, William e Montanaro ensinou a minha geração a gostar tanto daquele esporte que, em poucos anos, ele se transformou no segundo mais popular do país. Quando, depois dos jogos do Campeonato Mundial de 1982 ou das Olimpíadas de 1984, íamos para a rua montar a rede e "repetir" a atuação dos nossos ídolos, não me lembro de alguém que dissesse: "Eu sou o Bernardinho." Quase todos queriam representar o papel dos titulares - nossos heróis - e não do levantador reserva. Bernardinho não tinha vaga na seleção da minha rua.

Poucos poderiam imaginar que ali, no banco de reservas da seleção, atento a tudo, estivesse sendo gerado - no ventre dessas competições e de outras tantas - o maior técnico da história do voleibol brasileiro e um dos maiores símbolos de liderança do Brasil. O obscuro jogador reserva da geração de 1980 tornou-se um craque do esporte no nosso país. Não tem habilidade para realizar os atraentes - e às vezes inúteis - malabarismos individuais, mas é o grande astro do jogo coletivo. Bernardinho é o divisor de águas num país que precisa aprender a importância da cooperação, da solidariedade e do trabalho em equipe. Diga que seus jogadores são baixos e Bernardinho os fará saltar mais alto. Diga que são fracos no bloqueio e ele irá torná-los os melhores do mundo. Diga que a seleção de vôlei do Brasil é deficiente na defesa e ele fará dos seus comandados defensores imbatíveis. A essência dessa transformação é a crença numa equação simples que nada tem de matemática: TRABALHO + TALENTO = SUCESSO. Não por acaso o TRABALHO vem antes do TALENTO. Para Bernardinho - economista formado pela PUC do Rio -, a ordem desses fatores altera o produto. Apoiado no seu próprio exemplo como jogador, ele aposta no esforço e na perseverança, na disciplina e na obstinação. Sempre percebi uma lógica elementar na sua mente: é melhor lapidar até a exaustão o talento médio (e determinado) do que tentar polir o diamante preguiçoso que não deseja polimento. Se Thomas Edison, o mago da lâmpada, deixou para a posteridade a famosa frase "Gênio é 1% de inspiração e 99% de transpiração", Bernardinho - por mais iluminado que seja - não ousaria contestá-lo.

Quando vai a empresas, a grandes corporações ou à Escola Superior de Guerra dar suas palestras, a razão dos aplausos freqüentes é uma só: as lições do Bernardinho se aplicam a qualquer setor da atividade humana. Ele se tornou aos poucos o símbolo da liderança moderna. Democrático, franco, aberto, mas seguro no momento de decidir. A seleção brasileira de vôlei - como exemplo bem-sucedido de gestão de pessoas - deveria servir de referência para qualquer empresa. As possíveis vaidades e os melindres foram substituídos por um enorme senso de solidariedade - uma cumplicidade, no que pode haver de mais positivo na definição desse termo.

Vinte anos depois de ser vice-campeão mundial e olímpico no papel de levantador reserva, Bernardinho, agora como técnico, levou o Brasil ao título nas Olimpíadas e no Campeonato Mundial. Fez de um time sem resultados expressivos nos últimos anos a seleção mais temida no mundo do vôlei. Transformou pessoas - uma especialidade sua. Criou uma geração segura de jogadores determinados, revigorou o ânimo de alguns outros e construiu uma equipe de assistentes a quem entregaria ouro em pó. Foi nesse refinado processo de garimpagem e lapidação que o Brasil viu surgir a preciosa carreira desse líder.

Há muitas frases ditas pelo Bernardinho que merecem ser guardadas para reflexão. Certamente neste livro você irá encontrar várias delas. Algumas simples, outras complexas, mas todas com um conteúdo que resume, em pequenas doses de sabedoria, o segredo de tanto sucesso. A minha preferida é "No fim das contas, são as pessoas que fazem a diferença". Considero essa frase um achado. Afinal, as instituições não funcionam sozinhas, não se gerem por toque de mágica, nem os cargos têm vida própria. Equipes, empresas, corporações ou governos são o resultado do trabalho de um grupo de indivíduos. Nesse processo, é preciso encontrar o que houver de melhor em cada um deles para tornar sólida a instituição; fazê-los entender que o esforço coletivo leva à vitória, mas o talento individual desorientado tende a fracassar. Assim descobrem-se as grandes vocações e aperfeiçoam-se as virtudes. Esse trabalho Bernardinho desempenha como mestre

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